Conferência Inaugural


CONFERÊNCIA INAUGURAL

A EDUCAÇÃO ARTISTICA E A EDUCAÇÃO PARA TODOS. POR UMA ESCOLA COM SENTIDO *
Ana Benavente, Novembro de 2014

(*Texto base da Conferência Inaugural do I Congresso Internacional As Artes na Educação, Amarante, 2014)

“E OS MEUS PENSAMENTOS SÃO TODOS SENSAÇÕES
PENSO COM OS OLHOS E COM OS OUVIDOS
E COM AS MÃOS E COM OS PÉS
E COM O NARIZ E COM A BOCA” (…)

Alberto Caeiro, in Guardador de Rebanhos, IX (1º slide ppt)

Partindo da citação de Alberto Caeiro que aqui está projectada, gostaria de formular algumas convicções que retiro da minha vida pessoal, cívica e profissional. São convicções mas também inquietações, perguntas, dúvidas, reflexões e uma procura constante pela liberdade, pela igualdade, pela felicidade, que gostaria de partilhar convosco. Seleccionei assim, cinco pontos a que poderia chamar (não estamos numa escola, pois não??) os cinco dedos da minha mão esquerda.

Então:

1. A minha 1ª convicção, é uma certeza e uma evidência. Não há sociedades sem pessoas. Às vezes penso que é preciso relembrar que as sociedades existem porque há pessoas que se organizam em grupos, em instituições e em sociedades para viverem/vivermos melhor. Não há realidade social sem pessoas. A pessoa é um ser complexo: ser de razão e de emoção, ser simbólico, ser situado no espaço e no tempo, ser cultural, ser de comunicação e de palavra, objecto e sujeito da sua ciência. Muitas destas dimensões estão frequentemente esquecidas na vida colectiva e das organizações. Mas não deveriam estar. Hoje vivemos uma época de um capitalismo bárbaro, levado ao seu paroxismo de reificação de entidades tais como o MERCADO, A ECONOMIA, OS LUCROS, O DINHEIRO E OS OBJECTOS, O CONSUMO E O HIPERCONSUMO (faço aqui ume referência a um livro que muito me marcou nos anos 60, de Georges Pérec, Les choses, e que nos avisou, há décadas, do que aí vinha, o valor das coisas sobrepondo-se ao das pessoas). Esta reificação de entidades que se pretendem abstractas e universais mas que não o são, pois representam interesses particulares, levou a que se tenha vindo a designar as pessoas como “RECURSOS HUMANOS”. Recursos para quem e para quê? Quando perdemos o sentido do que é ser pessoa, perdemos o sentido da humanidade. E, no entanto, atenção, esta expressão, de sentido muito pesado, passou para a linguagem corrente, impôs-se e é utilizada como se fosse neutra. Não é.

2. Segunda convicção: Não há, ao contrário do que se diz e das políticas dominantes, separação entre CULTURA E CIÊNCIA, OU SEJA, ENTRE CIÊNCIA E ARTES. Porquê?
Porque uma e outra resultam da curiosidade, da inquietação e da vontade de conhecimento e de expressão das pessoas nas suas culturas, nas suas vidas, nas suas acções, nos seus rituais, nos seus momentos históricos.
Se estudarmos o que tem sido a história da humanidade, a cultura destaca-se com uma importância decisiva. E dessa cultura fazem parte as ciências, os saberes e as artes. Não vale a pena formular uma ou várias definições de cultura. Tudo é cultura, pois nela se traduzem os modos de pensar, de viver e de agir dos povos ao longo dos séculos e dos milénios. Nela se traduzem os modos de comunicar, de nos organizarmos, de nos representarmos e de representarmos o mundo. Não nos esqueçamos de Galileu, se necessário for, para nos lembrarmos a que ponto a ciência não domesticada, tal como as artes não domesticadas, são inovadoras, linguagens de ruptura, de manifestação de festa e de lutos, de protestos e de resistências. E poderia citar aqui algumas das nossas referências mais recentes, entre as quais a música de José Afonso, ou a obra de Paula Rego, de Amadeu Sousa Cardoso ou a pedagogia de Paulo Freire. A este nome voltaremos. Desde que comecei a pensar no que vos ia dizer, ouvi várias afirmações relevantes: a do jovem Nuno Magueijo, cientista/físico de renome no Imperial College em Londres, português há mais de 25 anos radicado no Reino Unido e cidadão do mundo, que conta como elabora textos científicos, com colegas, em bares e espaços de encontro e de conversa. De comunicação. Ouvi Jordi Saval, músico catalão, que recusou o prémio Nacional de Música como sinal de protesto contra a desvalorização da cultura pelo governo de Espanha e que afirmou: “a música é a única manifestação de comunicação entre culturas”. E aqui surge uma terceira convicção, verdadeira e menos feliz:

3. Temos uma terrível tendência, todos nós, para fragmentarmos a nossa acção (os músicos por um lado, o teatro por outro, a pintura ou a escultura por outro ainda, a dança ou outras expressões artísticas por outro, finalmente. A questão é que a educação se fragmenta em disciplinas e aqui se se enraíza um dos nossos males. Dividimos a pessoa em fatias, impomos interesses contra interesses, fechamos temas em áreas disciplinares (dar o exemplo das ciências da educação, que começaram com a articulação de disciplinas em torno da educação enquanto campo complexo: a filosofia, a história, a psicologia, a sociologia, etc. e que hoje dividiram esse campo em “especialidades”, tais como o currículo, a avaliação, a administração e gestão, etc. etc. etc.). Os próprios professores de educação artística, numa declaração elaborada em 2012, cheios de boas razões, exigem mais horas para as artes. Mas as razões também assistem aos professores de matemática, de história ou de geografia, de português ou de ciências. Com a fragmentação disciplinar, deixamos de compreender a realidade, deixamos de compreender o mundo e as pessoas e tornamos mais difícil a intervenção para transformar o mundo. E isto não acontece só na escola, acontece na sociedade. Sem, talvez, nos apercebermos, fazemos o jogo dos que ignoram o sentido da humanidade para se centrar nos seus lucros e nas fortunas individuais. As desigualdades que hoje marcam as sociedades (e vejamos o caso português, com um brutal aumento da pobreza, tal como em Espanha, aliás, e noutros países do mundo) não nos podem fazer esquecer que há sempre pessoas por trás das sociedades anónimas e da especulação financeira, por trás da “sociedade invisível“ (conceito de D. Innerarity). É, por isso, uma luta constante, a do trabalho conjunto, a da articulação entre disciplinas que se divorciaram (refiro a obra de Bernard Lahire, com os livros “O homem plural” (2001) e “O mundo plural” (2012), que mostram, de modo sistemático e academicamente reconhecido, a importância das abordagens multidisciplinares, sem as quais deixamos de compreender os mecanismos sociais, colectivos e individuais). Daqui, a importância de processos cooperativos, de trabalhos colectivos, de “boas práticas”, tais como a que o S. Presidente da Câmara de Amarante aqui referiu quanto à música, ou a que o Público destacou na passada quarta-feira, dia 12.11, em Guimarães, em torno das Artes na Escola. E muitas outras haverá. Estas “boas práticas” constroem-se como “pontos de luz”, como alternativas ao pior do mundo que vivemos. E isto em todos os espaços, institucionais, culturais e sociais, privados e públicos. Temos que nos lembrar, todos os dias, das lógicas, conscientes ou menos conscientes que orientam as nossas acções. Ou temos os nossos próprios projectos que resultam da nossa visão da sociedade ou estaremos a realizar projectos de outros.

1. Passo então à minha quarta convicção/inquietação: a da Educação Escolar.
Sabendo que a Educação é permanente e transversal, no sentido de que estamos sempre a aprender (ou não), em todos os espaços: nas cidades e no campo, com a natureza, com os animais e com os outros humanos. Mas não podemos ignorar que a Instituição Escolar foi ganhando grande importância nas sociedades modernas. E ainda bem. O que é “ainda mal” é a escola que hoje temos. Ainda bem porque a história nos mostra que os saberes estruturados universais que a Escola deverá assegurar a todos os cidadãos, em qualquer idade, são um direito e uma conquista. O saber e o conhecimento não são património de alguns para dominarem os outros, são de todos. Acontece, porém que a Escola para Todos não pode ser a do passado, aquela que era só para alguns, uma escola pobre, centrada na leitura e escrita que a todos se exige que aprendam ao mesmo tempo e da mesma maneira. Quem não o faz é castigado pela reprovação, para além de outros castigos simbólicos e institucionais. Permitam-me um breve parêntesis pessoal, dado o tema desta Conferência. Fui uma boa aluna, filha de professores primários, saí de uma rua de terra batida através da escola. Não havia, então, “tempos livres”. Um vago canto coral com o qual nunca acertei, uma educação física a que se pedia dispensa e um desenho geométrico ou à vista que permitia, de vez em quando, umas decorações de florinhas cuidadosamente passadas em papel vegetal e pintadas a guache, eis o que foram as artes na minha educação. Não sei se situe a literatura nas artes, alguma era mesmo “extra-escolar” e proibida e foi essa literatura que me abriu os primeiros mundos para além da minha casa, da minha rua, da minha escola e do meu país, deste “cantinho do céu”, como dizia então a minha avó. Mas mais tarde, muito mais tarde, na resistência, descobri a música e o seu poder. Descobri o teatro de intervenção e de protesto. E ainda muito mais tarde, já depois da Educação Popular, em momentos de grande stress pessoal, descobri a pintura. Foi uma libertação. Percebi a que ponto fui privada de actividades fundamentais, apesar de tanto estudo. Por isso, não tenho saudades da minha escola e ainda bem que os meus filhos viveram uma outra escola, um deles, artista, na António Arroio. “Artes para Todos” podia ser uma das minhas reivindicações, não tenham dúvidas. Fecho aqui este parêntesis pessoal. A escola de hoje contém, como consequência das políticas, o que considero ser vários crimes e refiro apenas três: o encerramento de escolas e os mega-agrupamentos (educação de aviário, a perda de identidade e de referências para crianças e jovens), o fim da educação dos mais velhos, da validação e certificação de competência aos CNO’s e, finalmente, na escolaridade obrigatória, a perda de áreas transversais, de espaços de cidadania e o regresso dos exames. Sou absolutamente contra os exames porque são o corolário dum modelo de escola que rejeito. E dou-vos cinco razões porque sou contra os exames, que tão facilmente foram aceites na sociedade portuguesa: 1ª decidir os modos de avaliação dos alunos influencia brutalmente as pedagogias que as escolas e os professores podem desenvolver. Nas escolas vive-se em função dos exames, preparando as crianças e os jovens para questões padronizadas e uniformes, deixando de lado actividades que, por não serem avaliadas, acabam por ter um papel “menor”. Refiro-me à educação artística, cívica, ambiental, para a saúde, refiro-me à orientação dos curricula em função das realidades vividas em cada comunidade, daí partindo para a universalização dos conhecimentos.

o regresso destes exames traduz uma insuportável desconfiança do governo em relação ao trabalho realizados pelas escolas e pelos professores.  “Sem exames, não há aprendizagem”, afirmava-se há mais de 50 anos. Nada de mais errado. As aprendizagens significativas para a vida de cada um de nós são as mais polivalentes, as que têm sentido e são, por isso mesmo, apropriadas por cada criança e por cada jovem. Tantos exames feitos com base em matérias “para esquecer” logo a seguir… Digam se não é verdade. O que nos fica é a obediência e o trabalho que se faz sem entender porquê.

os exames são a modalidade mais pobre de avaliação. Deixam de lado as competências pessoais e para a vida, limitam-se a obter respostas a testes, sob forma de perguntas “fechadas” (cruzinhas) ou “abertas” em que só uma resposta é verdadeira

4ª os exames antecipam a competição individual destruindo os laços de socialização. Num exame, é cada um por si, tal como na vida querem que sejamos indiferentes aos outros e individualistas a 1.000%. É esta ideologia do actual governo e de quem quer a escola ao serviço de alguns e não de todos que os exames concretizam. E começam logo no 1º ciclo, para que impere desde cedo a sede de competição.

5ª Finalmente, os exames confrontam as escolas com uma espécie de “Campeonato nacional”, em que os resultados obtidos lhe atribuem um lugar de “melhor” ou “pior” escola. Ignorando quem são os alunos e as comunidades em que vivem, calando as condições de trabalho, premeiam-se as que obtém resultados mais elevados, penalizam-se as que não os obtêm.

Esta minha convicção é, portanto, a de que não temos, hoje uma educação para todos mas sim uma escola que procura uniformizar as crianças, uma escola empobrecida e massificada no péssimo sentido da palavra. Perdemos muito, perdemos todos.

Basta ler ou ouvir António Damásio, quando diz que:

“A Ciência e a Matemática são muito importantes, mas a Arte e as Humanidades são imprescindíveis à imaginação e ao pensamento intuitivo que estão por trás do que é novo “ (in Conferência Mundial sobre Educação Artística organizada pela UNESCO em Março de 2006, em Lisboa).
Ou ler o último nº da Revista Lusófona de Educação (nº 26, Lisboa março 2014) em que se refere que a complexidade e a incerteza no mundo globalizado exigem que se repense a escola no sentido da transdisciplinaridade , nomeadamente num texto intitulado: Artes visuais e transdisciplinaridade na era da complexidade – uma prática pedagógica continuada.  para termos a certeza que há problemas e legítimas preocupações com o papel das Artes na Educação, tal como nos indica o tema deste Congresso.
Porquê? Porque, como disse, são desvalorizadas, menorizadas e até excluídas da vida escolar.
Tinha que ser assim?
 Não, não tinha que ser assim.
 Procurou-se, com mais ou menos pertinência, melhor ou pior, sobretudo, entre nós, desde o 25 de Abril, fazer das escolas lugares de vida e luta contra a exclusão. Não há qualquer dúvida sobre o importantíssimo lugar das Artes na Escola assim concebida: refiro, a título de exemplo o projecto da Fundação Yeudi Menhuin escolas de meios pobres, que financia actividades artísticas, absolutamente “reconciliadoras” dos jovens com a aprendizagem de novos saberes e reconciliadoras consigo próprios, com a sua cultura, as suas expressões.
Foi por esta razão que inseri no título desta minha intervenção a expressão “Para uma Escola com sentido”. É que para que a escola tenha sentido para Todos, ela tem que incluir as actividades humanas e não apenas os saberes escolares ritualizados que serão avaliados em exames padronizados. Ela tem que criar condições de aprendizagem para Todos, sejam de cultura letrada ou não letrada, filhos de doutores ou de analfabetos, de pobres ou de ricos.
 A Escola que hoje temos produz a exclusão, a selecção e a preparação do maior número de jovens para o mundo do trabalho. Pretende-se que sejam obedientes e agradecidos, que não façam uso de espírito crítico e muito menos de curiosidade ou de ousadia. E no entanto sabemos que a curiosidade e a ousadia estão na base da evolução da humanidade. Vejam lá, estão até na origem dos Descobrimentos de que tanto se orgulham os mesmos que hoje matam a Escola para Todos!
Sei que este ponto já vai longo mas é o que trata da Educação Escolar e creio que ela merece atenção e  que todos nós, cidadãos, temos uma palavra a dizer sobre a escola e a educação dos mais novos. E dos mais velhos. E sobre o mundo em que vivemos. Mas não dizemos ou dizemos demasiado baixo ou muito poucas vezes.
O ponto já vai longo, dizia, mas não posso deixar de citar um autor que me é muito querido e que é, entre nós, quase desconhecido, Henri Roorda, professor e anarquista do início do sec. XX. Fala ele, num escrito de 1917, imaginem, dos alunos como “pacientes” e como “arguidos”, que viram a cabeça para as janelas da sala de aula à procura de luz, do facto de que os pés só lhes servem para estar imóveis no chão (correcto, sinal de boa vontade) ou para provocar um ou outro incidente, tocando no colega da frente, por exemplo (errado e castigado) e, diz ele, a “terrível aprendizagem da regra de três” , que leva a modos de pensar generalizados que matam a criatividade e a curiosidade dos mais novos. “Se um aluno tem 4h horas de aulas e consegue uma nota de 10/20, se tiver oito horas de aulas, terá 20/20”. Henri Roorda suicidou-se e compreendo-o!
Que antiga é à crítica à escola. Gostava que debatêssemos aqui porquê. Porquê as breves tentativas de uma escola aberta, inclusiva e inteligente e os longos períodos de uma escola expositiva, padronizada, uniformizadora e castigadora? Porquê?

chego então à minha última convicção, ou o  último dedo da mão esquerda (não saberia dizer se é o indicador ou o mindinho, ou talvez até o polegar oponente): outra Educação é possível.
É possível outra Escola e é possível outra educação, nos espaços sociais e culturais, em iniciativas de vária ordem.
Permitam-me que retome aqui o que aprendemos (e que nem sempre praticamos) sobre a Educação Popular, a Educação Permanente ou a Educação ao longo da vida. Atenção, não me refiro a qualificações nem reconversões como se as pessoas fossem os dados inertes de um jogo de tabuleiro, tão na moda em tempos de desemprego, refiro-me a Educação com maiúsculas que pode, naturalmente, incluir dimensões de formação profissional e apropriação de novas competências.
Diz Alberto Melo, a propósito de Educação Popular e de educação do cidadão que esta educação tem que ser um “processo convergente ou conflituoso de culturas e valores”. Insistindo na importância dos grupos em que trabalhamos como iguais entre iguais, insiste que a “educação popular não é educar o povo”
(in “Passagens Revoltas”) e que a Educação liberta e desperta o “homem histórico” e não o “homem folclórico”, assumindo a sua cultura e o seu modo de vida e de relação com as coisas e com as pessoas, e aí se enraíza o conhecimento. Só assim se poderá conhecer a cultura dominante, a que nos domina e que, muitos de nós, rejeitamos. Educar é criar as condições para que cada um seja sujeito e não objecto da sua vida e da sua/nossa história.
Aqui se situam as nossas certezas e incertezas, lutas e resistências por Mais e Melhor Educação para Todos, num tempo de retrocessos e de muitas ameaças.
Cito ainda Paulo Freire e a sua Pedagogia da Libertação, pois nos seus escritos e nas práticas que inspirou temos nós um património que nos mostra que outros caminhos são possíveis. Diz ele que a educação nunca é neutra. “Os defensores da neutralidade da alfabetização não mentem quando dizem que a clarificação da realidade simultaneamente com a alfabetização é um acto político. Falseiam, porém, quando negam o mesmo carácter político à ocultação que fazem da realidade”
Diz-nos e mostra-nos, e muitos de nós já o vivemos, que a Educação é uma luta e uma aventura.
Um dever de cidadania.
Uma grande responsabilidade.
Um escrito intitulado “Cordel ao Educador” Paulo Freire, diz-nos que:
(…)
Para o mestre Paulo Freire, convincente e convencido, a educação é importante
desde que constituído o saber que consolida a cultura do oprimido”
(…)
“hoje com o mundo curvado à mentira e tirania, falta faz o método Freire do povo é o melhor guia para repartir o pão à luz da de democracia” .
Fica claro, e muitas e muitos de nós sabemo-lo, embora nem sempre queiramos saber, que a educação, a animação, a cultura, são práticas sociais e políticas, no sentido amplo e pleno da palavra e que temos, na nossa acção, de saber de que lado estamos.
Do lado do “olh’ó robô”? da educação uniforme e produtora de exclusão? Da educação para a conformidade e a obediência? Da animação para uma coesão social acrítica? Dos fatalismos e da indiferença?
Ou estamos do lado da diversidade, da luta contra as desigualdades, da criação de condições para que as pessoas se tornem sujeitos? Estamos do lado da criatividade, da curiosidade, da ousadia, da liberdade, da democracia?
Sentimos e sabemos que a sociedade portuguesa  precisa de reforçar e de encontrar novas dinâmicas na chamada sociedade civil, precisa de desenvolver a cooperação e de reencontrar outros modos de participação social, cultural e cívica.
Não basta dizê-lo, é preciso fazê-lo.
Não é fácil. Cada um/uma de nós escolherá o seu caminho. Com a certeza de que as nossas esperanças precisam da nossa acção para se tornarem realidade. Se o não fizermos, obedeceremos às vontades alheias.
E todos somos poucos.
Se tivesse que dar, hoje, agora, um título a esta intervenção, provavelmente esse título seria:
Elogio da desobediência e da vida em liberdade e igualdade. Para Todos.
Termino com uma outra citação de Alberto Caeiro:

E NÃO ME IMPORTO COM AS RIMAS.
RARAS VEZES HÁ DUAS ÁRVORES IGUAIS, UMA AO LADO DA OUTRA” (…)
Alberto Caeiro, in Guardador de Rebanhos, IX , 2º slide ppt

Procurem no youtube e oiçam a canção de Lenine, rapper brasileiro, cujo título, “Ser diferente é normal” ou, diria eu, o normal é ser diferente.
A Educação é uma prática social. Depende de todos nós
Muito Obrigada
Professora Doutora Ana Benavente, Amarante, 2014